Review – Vidas a Contraluz

Review - Vidas Contraluz (capa)

E ai pessoal!

Já faz um tempo que o EMD não traz uma review, então seu anão favorito resolveu acabar com o jejum e trazer um quadrinho diferente e porque não especial.

Vidas a Contraluz é uma HQ europeia, mais especificamente espanhola, que compila dois quadrinhos diferentes “Amores Mortos” e “Cabos Soltos”, publicados em 2002 e 2003 respectivamente. Sendo escrita por Raule e desenhada Roger, formando a conhecida dupla Raule & Roger, sendo então publicada no ano de 2006 na Espanha pela editora Diábolo Ediciones. 

E caso você tenha vontade de ler este quadrinho basta entrar no site dos nossos amigos do Ndrangheta & Deck’Arte, e quem sabe até você possa fazer o excelente serviço de importar esse exemplar e ajudar os autores.

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“Vidas a Contraluz, esse é um titulo exemplar

 

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Acredito eu que o titulo já deva dar a entender o contexto da obra, a amostra das histórias de algumas pessoas, a apresentação e reflexão de suas vidas, uma representação gráfica de uma história.

E devo admitir que é muito complicado escrever um texto sobre uma obra tão poética e tão profunda como essa, a profundidade dos textos de Raule são tamanha que as vezes penso estar lendo uma poesia. Talvez porque Raule também seja um poeta, e como tal a beleza de seus textos não se apresenta somente na complexidade das histórias contadas, mas na beleza e simplicidade com a qual ele as aborda.

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E caso você ainda não tenha percebido devido à confusão de meu texto, Vidas a Contraluz é um quadrinho episódico, que traz em si diversas historias que não possuem nenhuma conexão umas com as outras…minto! Existe sim uma conexão entre elas, a representação da vida como um aspecto natural do ser humano. Cada história, cada personagem, cada conto, todos apresentam um tema simples, a vida.

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E é por essas e outras que eu digo que “Vidas a Contraluz” é um titulo exemplar. Ao ler este quadrinho eu percebia cada vez mais o quanto as histórias ali presentes me eram familiares, o quão comum era ler e observar aquilo. Cada história ali contada é um reflexo do nosso cotidiano, não existe um grande plot e muito menos um twist, as histórias ali narradas não são mais do que deveriam, elas são o que são. São vidas sendo contadas, e Raule mostra que este não é um tema grandioso, não é necessário pompa para descrever uma vida, em nenhum momento ele quer ser mais do que realmente é, mas é por ser tão natural, por talvez entender tão bem essa beleza natural da vida que ele tenha sido capaz de expressar de maneira tão bela a própria.

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Todo o quadrinho segue como um jazz, seu ritmo e sua narrativa, calma lenta e precisa, cada história segue seu próprio passo e cada vida mostra seu próprio estilo. Tudo isso graças ao trabalho primoroso de Roger, um desenhista excelente e um artista ainda melhor. Sua habilidade para contar histórias é exemplar, uma narrativa simples e gradual, ele não precisa de muito tempo para contar uma história, um único quadro é o bastante. O simples olhar de um pai é capaz de contar mais do que milhares de volumes de alguns mangas. Seus ângulos são primorosos, sempre no lugar certo e na hora certa, a sua transição mais parece um filme, cada quadro é tão bem colocado que é possível fazer serpentes ao conectar os pontos de fuga.

Seus desenhos tem um estilo próprio, próprio do autor e da história. É perceptível a mudança no traço de uma história para a outra, o maior apego ao realismo em umas enquanto em outras vemos uma veia cartunesca mais forte. Chega a ser surpreendente a capacidade de tornar cada história tão própria e ainda fazer com que elas se tornem parte de um todo. O realismo anatômico compõe seu estilo, por mais que a maioria possa pensar no caricato ou qualquer besteira, o estilo de Roger é baseado no realismo e é até possível perceber um pouco de Hogarth e Lumis em seus desenhos. E é exatamente esta forte veia realista que compões a representação de Vidas a Contraluz, sempre representando o ser e a forma física como fundamentais, a dedicação constante a representação do olhar e o foco no todo antes do tudo.

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E é claro se eu falo de um todo, eu não posso me esquecer de falar das cores, uma paleta de cores simples, mas tão bem empregada. É raro ver coloristas que sabem tão bem como compor suas telas, cores chapadas que compõe sempre um degrade suave e belo, com a presença constante do vinho, marinho, bordeaux e bege, que compõe o clima da obra. Roger segue a risca os estudos de cores, é possível ver a paleta completa de um determinado circulo, a iluminação e excelente, as variações do dia para a noite são sempre claras e naturais, chega ser possível dizer a que hora do dia se passa aquela história. São raras as obras que apresentam uma colorização tão primorosa quanto essa.

Apesar de não possuir um plot principal, eu me pego pensando que esse quadrinho possui um tema próprio e que todas essas histórias juntas acabaram por criar algo. Não são histórias fáceis de digerir, temas como suicídio, mudança de sexo e a morte estão presentes na obra, o sexo é apresentado de maneira explícita, mas em nenhum momento eu me vi chocado, até porque como eu já disse aqui neste texto, Raule não quer te chocar, ele não faz dessas histórias mais do que elas são realmente. Essas são vidas como tantas outras, são histórias que estão sendo contadas neste momento, o sexo explicito mostra o quão real são essas histórias, a morte nos faz lembras da vida e as história são contadas para que não nos esqueçamos.

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Para muitos Vidas a Contraluz seja só mais um apanhado de histórias, mais um entre muitos, um quadrinho curto que não chega a 80 paginas.

Mas para mim ele é uma bela poesia em forma de quadrinho.

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Obrigado a todos e até a Próxima.

5 pensamentos sobre “Review – Vidas a Contraluz

  1. Olhando as fotos só tenho a dizer que o erotismo de hqs europeias é outro nível, as “putarias” de muitos mangás são vexatórias. Não que seja necessário mas você não deu nota.

    • Sim não dei nota.
      Não gosto de dar notas, acho subjetivo demais e ainda por cima resume mal o conteúdo de um texto. Acho mais interessante a pessoa imaginar a minha avaliação pelo meu texto e não por uma nota, que por um acaso você já deve imaginar qual seria lendo o texto.

  2. Me interessei muito em ler a obra após este texto, não pelo plot quase inexistente pois trata da vida e não pela arte, mas sim pelo jeito como você escreveu sobre a obra passou a sensação de que você realmente se conectou de alguma forma com a obra, já li inúmeras reviews de inúmeros sites mas poucas conseguiram me passar essa sensação de “quem está escrevendo realmente se conectou com a obra”, parabéns Lucas ficou realmente muito bom o texto e você vendeu muito bem essa obra! Gostaria de fazer uma analogia mesmo sem ter lido, essa parada de não ter um plot é semelhante aos filmes antigos do Tarantino (Pulp Fiction e Cães de Aluguel), onde você sabe mais ou menos alguma coisa da história mas o foco não é o que aconteceu ou o que irá acontecer, mas o importante são os personagens lidando com as situações impostas pelo roteiro, acredito que esta HQ possa entrar nesse mérito por se tratar da “vida como ela é” (pelo o que entendi no texto coloca algumas coisas pesadas mas continua sendo sobre a vida), e a vida não tem um roteiro, não tem plot-twist e nem mesmo um plot. Não sei se eu falei merda por não ter lido a HQ antes de comentar, se eu falei me corrija huahuahuahua.

    • Fico feliz que tenha gostado do texto, como de costume quem escuta o Prorrogação sempre se destaca.
      E você não falou besteira, até enfatizei o titulo da obra porque ele meio que transcreve esse conceito de representação da vida. O mais interessante é exatamente o fato de as histórias serem reais, por serem histórias. É algo que poucos autores tem a capacidade de fazer, simplesmente conseguir escrever algo que nem ao menos parece escrito. Em nenhum momento você duvida do que acontece ali, é uma distinção muito grande para com o que acontece no mundo dos mangas por exemplo, onde tudo é empurrado pelo autor que te obriga a aceitar o que acontece.
      No final não tem o que fazer, tem mesmo é que ler esse quadrinho, que só não é mais zica porque não tem futebol moderno.

  3. Pingback: EMD Cast #170: Season Review – Winter (Verão no Brasil) 2015 | Ecchi Must Die!

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